ELA

Minha memória é falha,  não lembro bem dos nomes dos meus filhos e troco toda hora o nome dos meus netos. A única lembrança que permanece intacta em minha mente são as lembranças dela, o rosto, as expressões duvidosas, o cheiro e a sensação que me provocava sempre que estávamos juntos. Nenhuma doença foi capaz de apagar minhas memórias com ela.

Todos os dias às 19hs sento na poltrona que ganhamos da minha mãe ao nos mudarmos para nosso primeiro apartamento na mesma rua em que aconteceu nosso primeiro beijo. 19hs era o horário em que eu chegava do trabalho, bebia o melhor chá do mundo e a contava sobre meu dia. Passo a maior parte do meu tempo sentado nessa mesma poltrona em que ela sentava com as pernas dobradas falando sobre os capítulos dos incontáveis livros que leu e conto aos papéis, paredes e plantas as lembranças deixadas por ela enquanto amargo o chá da minha neta mais velha, acredito eu.
 


Era dia 26 de novembro de um ano que não consigo recordar, sentei-me no mesmo lugar de sempre daquela sala no final do corredor, do meu lado a cadeira comumente ocupada pelo moço de dreads estava vazia. Uma dor de garganta forte havia o deixado de cama, seu organismo não sabia se comportar bem com mudanças repentinas de tempo. Da janela eu via o céu limpo, sem nuvens, o calor indo embora invadido pela brisa do mar embora seus raios de luz permanecessem fortes. Distraído pela beleza climática, tomei um susto ao ouvir o barulho da cadeira ao meu lado sendo ocupada por ela.
 


Assim que chegou, me sorriu com o olhar tímido e sorri de volta, claro. De imediato me peguei reparando em cada parte dela, os olhos castanhos brilhando pela luz do Sol que entrava em nosso espaço, a boca pequena desenhada por um pintor especializado em traços finos, eu supunha. A tatuagem de sereia que ocupava todo o seu braço esquerdo, as pernas inquietas que não aguentavam vinte segundos na mesma posição, as unhas vermelhas descascadas, a leveza, a beleza, um brilho único de uma criatura que eu recusava acreditar que fosse real por nunca ter visto alguém cujos detalhes transparecessem tão facilmente a um observador superficial como eu.
 

Ela era composta por incalculável intensidade. Meus olhos a seguiram durante toda aquela aula entediante de segunda-feira. Como era possível nunca ter reparado nela? Naquela hora isso me parecia impossível. Ela era daquelas que não passa despercebida por ninguém. Será que nossos caminhos já tinham se cruzado antes ou será que ela era fruto da imaginação de um estudante que dorme três horas por dia?
 

Sempre soube todas as regras dos números e dos pensadores de todos os séculos, mas nada foi útil para que eu descobrisse as regras do encanto e do amor que me foram acordadas por ela. Seria mentira se eu lhes dissesse que nunca tive ninguém em minha vida até aquele momento. Troquei muitos beijos, muitos toques mas nunca antes havia trocado silêncio, um silêncio barulhento dentro dos meus profundos pensamentos. Uns acreditam em destino, outros em acaso, outros como eu em nada acreditam. Não há nada que não seja cientificamente comprovado em que eu acredite com exceção dela. Eu sempre acreditei nela. Não sei se foi destino ou acaso, não sei se foi amor, ela foi muito além disso. O que sei é que sempre vai ser ela e aquela magia dela e agora, a saudade que sinto dela.

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