Nossa História

O telefone tocou e meu telefone nunca toca. Vamos combinar que é no meio assustador receber ligações nos dias de hoje, né. Pensei logo que era cobrança, notícia ruim da família mas para a minha maior surpresa era você. Soltei uma risada gigantesca, que acordou minha mãe quando olhei para o telefone e vi ‘’Recebendo ligação de Capeta’’. É, eu não mudei o seu contato. Recusei algumas vezes, não por maldade ou falta de vontade, pelo contrário, eu tava bem curiosa pra saber porque você tava me ligando. Mas deu um frio na barriga ... acho que era medo de te ouvir, não sei, só sei que você insistiu algumas vezes e como não aguentava, resolvi ceder.
- Fala ...
- Lembra como tava esse bloco ano passado?
- Que bloco? Onde você tá?
- No nosso bloco, não no bloco porque ele já acabou, mas naquela rua em que a gente se parou, dançou, cantou, pulou, se pegou atrás de uma árvore, comeu um sanduíche de três carnes e pra variar brigou, porque parece que essa é a única coisa que a gente sabe fazer direito além de você sabe o que.
- Ah, aquele bloco que você disse que não queria passar o Carnaval agarrado?
- Não começa cara, você sabe que eu adorei passar o bloco agarrado em você e se eu tô te ligando agora largado no meio fio da rua não é porque eu esbarrei com você no bloco e resolvi fingir que não te vi, mas porque agora o nosso cenário é diferente e eu não queria que fosse assim, queria que a cena do ano passado tivesse se repetido mas sem as brigas dessa vez. Só agarrados.

Nunca sei bem o que dizer nesses momentos de revelação porque eu não sei mentir e nesse caso eu não posso falar a verdade. Não posso simplesmente virar pra ele e dizer que sinto saudade, que penso nele praticamente todos os dias mesmo que tenha se passado um ano e que sim, eu gostaria que todos os nossos momentos estivessem se repetindo, até mesmo as brigas porque fazer as pazes era maravilhoso. Eu até podia falar isso, mas não devo. O Marcelo foi um monstro comigo em todos os sentidos possíveis, até ele se envergonha de dizer isso hoje em dia. Tudo entre a gente era muito intenso, do amor ao ódio, por mais que esse último fosse momentâneo.
Não sei. Por muitas noites esperei que o Marcelo dissesse que me amava, que percebeu que era louco por mim e que queria voltar mas passou um ano. Tá, eu penso nele, uma parte minha ainda quer que ele ligue bêbado feito um porco chorando e dizendo essas coisas mas sem ele eu consegui descobrir coisas em mim que eu nem sabia que existiam, eu comecei um novo esporte, fui promovida, eu passei a me olhar mais porque quis me fechar pra qualquer coisa externa e foi tão bom, sabe? Ironicamente, ficar longe do suposto amor da minha vida foi a melhor coisa que podia acontecer.

- Marcelinho, me liga amanhã quando você tiver sóbrio ou me encontra no restaurante da faculdade na mesa rústica que a gente comia, pode ser?

- Não. Eu tô indo pra sua casa agora, Lu.

- Você tá o que?                                                       
Meu coração literalmente saiu pela boca. Custei a acreditar que aquilo fosse verdade, na real eu só acreditei quando o Marcelo começou a gritar debaixo da minha varanda cantando a tal da nossa música que eu nem sabia que era nossa música e que fazia muito sentido ser. Mandei ele subir antes que acordasse o prédio inteiro e me preparei psicologicamente pra ficar cara a cara com ele. Então abri a porta.
                                                                                 
- Eu sei que eu fui um babaca, um grosso, monstro pentápode mas eu te amo. Sei também que não falava isso há muito tempo mas eu te amo. Eu amo até os seus ciúmes, eu amo cada pedacinho seu que eu dizia não suportar. Você é a mulher da minha vida e eu não aguento mais ficar longe de você e fingir que não sinto nada, que nossa história foi descartável. Não precisa responder, você tem todo direito de me bater a porta na minha cara se quiser mas eu precisava desabafar, precisava falar pra você como eu me sinto porque nem minha mãe nem meus amigos me aguentam mais.

- Marcelo, eu não sei o que falar, você me pegou de surpesa, faz tanto tempo, tanta coisa aconteceu.

- Eu sei, aconteceu um bocado de coisas pra nós dois, eu não sou mais o mesmo e só queria que você me desse uma chance de te mostrar isso.

- Pra que? Pra gente passar um mês super bem e depois querer se matar?

- Lu, se você ficar olhando pra trás nunca vai conseguir ver o agora.

Eu sabia exatamente do que ele tava falando, enquanto pensava nele minha vida não andava, não dá pra viver de passado quando se tem um futuro imenso com tanta coisa boa pela frente. Mas dar uma chance pro Marcelo? Socorro, só queria que alguém congelasse o tempo nesse minuto.


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