A Bela da Tarde

Decidi passar as férias em Recife, sempre quis conhecer o Nordeste do país, o clima gostoso, as pessoas que te abraçam, o sotaque com expressões únicas, as famosas paisagens de cartões postais que deixam o Caribe no chinelo. Logo no primeiro dia descolei uma bicicleta com o gerente do bar do hotel e fui dar uma volta na orla de Boa Viagem, admirar o pôr do sol e lavar a alma com um banho de mar.

Devo ter pedalado por volta de 10km quando resolvi parar e colocar os pés na areia. A praia tava cheia, tinha gente de todo o canto, uma energia boa que só mas tanta coisa foi irrelevante, uma vez que minha visão se fechou na presença dela. A menina parecia que emitia luz própria, não deve ser a toa que tenha tatuado no braço um girassol. Ela lia um livro e anotava coisas, sublinhava frases, me incomodou um pouco ver alguém rasurando um livro daquela maneira, acho que livros são preciosos demais para serem modificados manualmente, sabe? Mas cada um com suas manias.

Não consegui parar de olhar pra ela enquanto caminhava em direção ao mar e quando dele saí, nossos olhares se cruzaram, dois faróis azuis na minha direção, facilmente confundiria aqueles olhos com o céu, me arrisco a dizer que me apaixonei instantaneamente como o encontro da água do mar batendo na areia. Aquela paixão momentânea de segundos que você vê se perdendo por falta de coragem, de jeito.



Aquele cenário não nos uniu e nem foi palco de um beijo apaixonado ou uma cena de novela. Eu só voltaria a encontrar a menina do girassol em uma ilha a uma hora de avião dali duas semanas depois. Sempre acreditei em destino e aquilo ali era um presente, algo que eu não podia deixar passar por nada. Me aproximei dela perguntando porque rasurava seus livros e ela obviamente ficou meio assustada, afinal como um ser humano aleatório podia saber de uma mania tão íntima.

- Tem duas semanas que te vi na praia de Boa Viagem perto da Barraca do Zé, era um domingo de céu azul, assim da cor dos teus olhos e seu jeito peculiar de ler me chamou muito a atenção, com todo respeito a sua beleza.


- Uau, você deve ter ficado chocado mesmo pra lembrar de mim.


- Encantado. Eu fiquei encantado. Não é todo dia que alguém chama minha atenção assim, ainda mais em um lugar cheio de gente.

Ela ficou completamente sem jeito, deu um sorriso bobo tão lindo que me fez derreter mais ainda. Perguntou por quanto tempo eu ficaria na Ilha mas infelizmente eu só podia ficar por mais dois dias, já que tinha que me apresentar no trabalho no primeiro dia útil do ano. Convidei-a pra fazer um passeio de barco e explorar um pouco daquele lugar mágico no dia seguinte, pra minha felicidade ela aceitou e pra minha surpresa perguntou se não podíamos tomar uma cerveja naquela noite. Foi minha vez de dar um sorriso bobo e ser motivo de piada na roda de amigos mas lá fui eu, lá fomos nós, da cerveja no bar pra festa na cobertura e do pôr pro nascer do sol. Tão natural, tão mágico, tão verdadeiro que não nos preocupamos com mais nada além de saber de nós e de sermos nós naquela noite.


Eu já planejava voltar naquela ilha pro nosso casamento, colocar o nome de uma das praias no nosso primeiro filho e pedir ela em namoro com um girassol gigante em mãos. Mas nunca realizei nenhum de meus planos, meu voo de volta a Espanha sairia horas antes do que havia pensado, precisei correr como um louco para não perdê-lo. Deixei na recepção um papel com um bilhete e um girassol pra não perder a morena mais linda de toda a cidade de vista, mas por motivos que desconheço ou da tal ironia do destino nunca mais tive notícias da moça bonita da praia de Boa Viagem e dos seus olhos azuis como a tarde de um domingo azul.


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