O Dia Em Que Ele Voltou

Segunda. 13 horas. Eu tenho um intervalo longo entre as aulas da manhã e as da tarde, então depois do meu almoço, pego meu livrinho e vou pra aquele bosque da faculdade, rodeado por árvores, flores e um silêncio encantador. O livro da vez era Dom Casmurro que eu já devo ter lido umas 15 vezes mas nunca fica velho ou chato. De repente, no meio da minha leitura, senti uma mão cobrir meus olhos.

- Quem é? - perguntei.

- É o amor da sua vida.

Reconheci a voz do Pedro na hora. Fiquei branca feito papel, não sabia o que falar, mas resolvi disfarçar.

- Nossa Cristiano Ronaldo, quando foi que você perdeu o sotaque português?

- Não acredito que você continua a mesma idiota de 15 anos apaixonada por esse cara. Melhor do mundo só tem um e você sabe que é o Messi - disse tirando as mãos dos meus olhos.

- HAHHAHAHAHA, como você é engraçado, Pedro.

Se eu pudesse ver a minha cara naquele momento, aposto que minha expressão não me agradaria nem um pouco. Olhei pro Pedro como se tivesse olhando para um sonho de padaria depois de 20 dias sem comer doce, até que ele me puxou e me deu um daqueles abraços em que a gente gostaria de morar, sabe? E particularmente nesse abraço eu moraria dia após dia com a mesma expressão que faria para o sonho de padaria.

Eu e o Pedro não nos víamos por volta de uns cinco anos. Há uns anos atrás enfrentamos um dos piores momentos das nossas vidas, no auge do nosso 1 ano de namoro, ele recebeu uma proposta irrecusável de trabalho na Europa, o sonho dele, e obviamente não pôde recusar e seria muito egoísmo da minha parte que lhe pedisse isso, o que nunca passou pela minha cabeça. Pensei em ir, adaptar meus sonhos ao continente europeu e continuar feliz com o melhor parceiro que tive na vida. Mas aí eu estaria sendo injusta comigo, com tudo o que sonhei lá atrás. Descobri que tinha passado para a faculdade e decidi ficar no Brasil. Sei que a Europa é mil vezes melhor e que talvez lá eu tivesse mais oportunidades, mas eram os sonhos que sonhei com tanta paixão, queria primeiro crescer no Brasil e conseguir mudar um pouco da realidade artística do país por exemplo, o que hoje vejo que é uma doce ilusão, mas deixarei essa questão pra depois.


Terminamos bem, fomos forçados pelas circunstâncias da vida mas foi tudo tranquilo. Cada um foi pra um país, nós até nos falamos constantemente no começo mas algumas coisas começaram a machucar e decidimos apenas nos respeitar e continuar tendo carinho um pelo outro. Foi assim que o Pedro sumiu de todas as minhas redes sociais possíveis mas do meu coração, nunca. Eu amava o Pedro como amava a mim mesma, então foi bem doloroso. Quando algum amigo em comum me encontrava, dizia que também doía nele, que nem comer ele comia direito. Mas pelo menos bebia, como as redes sociais dos amigos dele, que eu não lembrei de esconder, me mostravam, então não tinha porque eu ficar me lamentando ou acreditando nas ladainhas dos fãs do casal que eu e Pedro éramos. E era até melhor pensar que ele tava seguindo, assim eu segui também, afinal não tinha muito o que fazer.

- Você tá tão linda. Sempre foi mas sei lá, talvez seja tanto tempo sem te ver ou falar contigo. Senti muito sua falta, Belinha.

- Também senti a sua … mas eu tenho algumas perguntas: 1. O que que você tá fazendo aqui? 2. Como sabia que podia me encontrar aqui? 3. Desde quando você vem pro Brasil em datas que não sejam festivas?

- Eu só conto se você topar comer aquele hambúrguer do Hell’s comigo.

- Tô de dieta e o Hell’s fechou tem um tempo, então acho que você vai ter que falar aqui mesmo. E eu tenho aula daqui a pouco, é melhor se apressar.

- Eu voltei por uma temporada e sei que você se forma esse semestre. E não teve um dia em que eu não pensasse em você na Espanha. Tá, eu tô mentindo, mas na maioria dos dias eu lembrava de você com o mesmo amor mesmo depois de muito tempo e zero contato, acho que você é a mulher da minha vida. Eu amo você e eu penso em você, em nós e nas infinitas possibilidades, me torturei muitas vezes até que o destino (sim, eu ainda acredito em destino) resolveu me pregar essa peça. E bem, eu nunca deixei de acompanhar seus passos, sua melhor amiga nunca foi muito boa em guardar segredos e meu melhor amigo sabe disfarçar muito bem, só me mantive afastado porque você pediu e você tava indo muito bem, não tinha porque atrapalhar sua vida já que eu não podia mudar nada, seria até injusto bagunçar tua vida de alguma forma, mas agora é diferente. Agora é minha vez de perguntar: como você sabia que eu vinha pro Brasil em datas festivas?

- Você é inacreditável, no melhor sentido dessa palavra. E eu tenho bola de cristal, esqueceu?

- Será que a gente pode achar uma nova hamburgueria preferida?

- Bom, eu não tenho nada mais interessante pra fazer hoje, então a gente pode sim. Me encontra aqui em duas horas? Eu preciso muito assistir essa aula.

- Pra quem esperou anos, o que são duas horas, né?

- Pedro! - silêncio perturbador - Eu também te amo.


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